Método


Glenn Doman é diplomado pela Universidade da Pensilvânia em Fisioterapia. Dedicou muitos anos de sua vida à pesquisa no campo da criança de cérebro lesado, iniciando um trabalho pioneiro neste campo. Fundou o Institutes for the Achievement of Human Potential ( Institutos Para o Desenvolvimento do Potencial Humano), o qual presidiu por mais de 40 anos.

Doman, a partir de 1940 passou a trabalhar no Temple University Hospital & Medical School como subchefe da seção de fisioterapia. Não havia tido contato com crianças de cérebro lesado até deparar-se com o caso Billy, encontrado em uma enfermaria infantil que abrigava crianças muito pequenas e com graves problemas de saúde.

Billy era um adolescente com hidrocefalia, ele tinha a cabeça maior que a de um adulto e seu corpo não media mais de 60 centímetros de comprimento. Falava com clareza e tinha boa compreensão, impressionando muito a Doman que foi à procura do médico que o tratava com o intuito de entender o que estava se passando com este jovem. Aconteceu então seu encontro com Dr. Temple Fay, o mais renomado neurocirurgião da época e que anos depois haveria de inciar a refrigeração humana, ou hipotermia de órgãos humanos e salvaria muitas vidas.

Devido ao interesse demonstrado por Doman e os seus diversos questionamentos, Dr. Fay o convida para assistir algumas de suas cirurgias.

"Fiquei inteiramente hipnotizado naquele primeiro dia na sala de operações, vendo Fay acariciar um cérebro humano. Ele era um soberbo cirurgião”.

"Em todas as horas, dias, semanas e meses dos dezesseis anos subseqüentes, em que por semanas a fio virtualmente vivi com Fay, não creio que tivessem transcorrido mais de quinze minutos consecutivos sem que ele estivesse a me ensinar alguma coisa”.(DOMAN, 1989, p.28).

Durante o período de 1941 a 1945, Doman se afasta de suas pesquisas para fazer parte do corpo médico da infantaria durante a Segunda Guerra Mundial. Ao retornar a Filadélfia, em 1945, os membros da Physical Therapy lhe ofereceram uma clientela já formada e ativa como homenagem pelo seu trabalho durante a guerra. Eram 31 pacientes e todos com derrame cerebral.

Mas, Doman não conseguia progressos com seus pacientes. Em 1947 através de uma convenção médica da qual fez parte, se reencontrou com Fay e lhe colocou os problemas que enfrentava com seus pacientes com derrame cerebral ou apoplécticos.

Doman retornou ao centro operatório com Fay e passou a adquirir maiores conhecimentos sobre "aqueles belos, palpitantes cérebros cor de coral".

De 1947 a 1950 passou a se formar uma pequena equipe de quatro membros: Glenn Doman, fisioterapeuta, sua esposa Hazel, enfermeira, Dr. Temple Fay, neurocirurgião e Dr. Robert Doman, médico. Todos passaram a trabalhar e a pesquisar sobre as crianças de cérebro lesado. Estes formaram o que Doman chamava de uma organização de luta livre, a Neurophysical Rehabilitation Center. Atendiam cerca de 250 pacientes das mais variadas idades e todos com lesão cerebral.

Segundo Doman (1989), mesmo com a utilização de vários recursos e técnicas da época, não logravam grandes resultados. Via-se claramente que algo estava errado, era necessário ir atrás das respostas. Após longas horas de discussões, onde cada um defendia suas técnicas o que, evidentemente, não estava apresentando resultados positivos, ao observarem os métodos de tratamento que vinham sendo empregados nesse grupo de crianças, encontraram um ponto em comum.

"Com eles, todas as crianças do grupo estavam sendo tratadas do pescoço para baixo, ao passo que todas elas, na realidade, tinham seu problema do pescoço para cima. Em suma, estávamos tratando de todas aquelas crianças aonde não se encontrava o seu problema e nenhuma era tratada na origem do seu problema”.

“Forçoso era concluir que, se alguém tinha de tratar uma pessoa com lesão cerebral, deveria tratar o cérebro lesado, dentro do qual residia sua causa, e não do corpo onde se refletiu os sintomas”.(Ibidem, 1989, p.59).

A partir dessa conclusão passaram a se perguntar o que é normal?

Como a desinência normal tinha muitas facetas a serem consideradas e cada uma possuía uma especialidade, foi necessário procurar outros especialistas que ajudassem a compreender todas essas facetas. Então, passaram a fazer parte da equipe, o Dr. Martin Palmer, logopedista e Dr. Carl Delacatto, psicólogo e educador. A partir deste último, muitos outros médicos e terapeutas que iam visitar a equipe e conhecer seu trabalho, acabavam ficando.

Entre estes, está o Dr. Raymundo Véras que foi à busca de recursos para seu filho, José Carlos Lôbo Véras e passou a ser membro integrante da equipe. Anos depois, seu filho já reabilitado e fisiatra, também passa a ser membro da equipe.

Ao recorrerem a literatura, perceberam que o único que falava sobre crianças sadias era Gesell e que este, havia estudado amplamente para a época, o desenvolvimento da criança sadia. No entanto, Gesell dedicava-se a observar cuidadosamente a criança e de que maneira ela crescia, mas a equipe queria saber não somente "quando" a criança aprendia a mover-se e a falar, mas "como", e "porque" o fazia.

Passaram então, a buscar direto a fonte, nos próprios bebês e recém nascidos, fazendo do mundo seu próprio laboratório. Estudaram crianças de várias civilizações em países e continentes.

"Para lá se dirigiu ele, com a sua querida equipe, a fim de que pudessem ver com seus próprios olhos, enquanto conviviam com as crianças, aquilo que nenhum especialista em crianças jamais vira em tempo algum”.

“Deram a volta ao Equador e na África, conviveram com os agigantados massais e com os diminutos bosquimanos do deserto de Calaári. Vaguearam pelo continente africano, convivendo com muitas tribos e percorreram o Ocidente Médio, Terra Santa e a Ásia"(Véras, 1989, p.12).

Essas pesquisas também foram feitas no Sertão do Xingu e em outros países da América do Sul, Europa, África, Ásia e no Ártico.

"Era evidente que aquele itinerário do crescimento seguido pelo bebê para tornar-se um ser humano no sentido amplo da palavra era não só muito antigo como ademais muito bem definido. Interessante era observar que tal itinerário não comportava a mínima variante. Não existiam desvios, encruzilhadas, cruzamentos, nada que alterasse seu percurso. Era uma estrada invariável que todas as crianças sadias percorriam durante o processo de crescimento"(Doman, 1989, p.65\66).

Hoje com mais de 80 anos, Glenn Doman é um brilhante cientista que ainda tem feito inúmeras experiências com crianças de cérebro lesado nos Institutos em parceria com a NASA. Em 1996, lançou uma nova técnica para o tratamento de crianças seriamente lesadas.

Segundo Doman (1989), a técnica antigravitacional só será compreendida pelo mundo daqui a vinte anos e então não será mais ele seu criador.

Buscando-se em todas as pesquisas realizadas, ficou evidente que todos os recém nascidos percorriam o mesmo caminho para humanizar-se. Voltaram, então, a atenção para o cérebro lesado e perceberam que todas as crianças iam até um ponto do desenvolvimento normal e paravam, pois era ali que estava o bloqueio da estrada, a lesão. Para haver um desenvolvimento normal era necessário o desenvolvimento de seis funções básicas: três motrizes, mobilidade, linguagem e capacidade manual; e três sensoriais, capacidade visual, auditiva e táctil. Todas são funções cerebrais e passam por sete níveis de desenvolvimento distintos.

A partir da observação da escala filogenética em cada função, foi possível ver que cada animal possui uma determinada estrutura cerebral que lhes permite desempenhar essas funções até um certo nível. Conforme os animais cresciam na escala filogenética, cresciam também, as funções humanas, até o ponto onde se diferem as funções puramente humanas, ou seja, as estruturas cerebrais que somente os homens possuem, as funções corticais.

Juntando todas as funções cerebrais a cada nível cerebral, comparado estes a escala filogenética e as funções corticais, mais as faixas etárias nas quais estes níveis são desenvolvidos, obtém-se, assim, a idade funcional de cada nível.

Com estas conclusões, é desenvolvido o perfil de desenvolvimento humano, pois foi através dele que Doman concluiu que, se quisesse uma ferramenta de trabalho que lhe permitisse comparar com um padrão o desenvolvimento neurológico de uma criança, teria que forjar esta ferramenta, sendo ela o Perfil do Desenvolvimento Humano.

O Dr. Edward B. Lewinn em seu livro Human Neurological Organization (in Véras, 1989, p.94), "O Perfil do Desenvolvimento Humano é instrumento diagnóstico, porque revela de pronto a presença da desorganização neurológica. Define claramente o grau e extensão da desorganização neurológica, assim como o nível funcional comprometido... Determina, também, a posição da criança ilesa na faixa da normalidade, isto é, se o desenvolvimento é tardio, médio ou superior”.

Gretchen Kerr (in Véras, 1989, p.95), diretoria do Childrens Institute of the Achievement Human Potential, diz que: "O Perfil do Desenvolvimento Humano constitui o modelo do desenvolvimento humano a muitos respeitos. Em primeiro lugar, compreende o sensório (visão, audição, tactilidade, que são as vias pelas quais a informação do meio ambiente vai até o cérebro), e o motório (mobilidade, linguagem, capacidade ou função manual, que são as vias pelas quais o cérebro pode responder ao meio ambiente)".

Em segundo lugar, o Perfil é o método da seqüência em que o cérebro amadurece e diz em que idade isto ocorre.

Em terceiro lugar, vem a ser o modelo da seqüência do desenvolvimento de funções específicas que o ser humano há de realizar para lograr o desenvolvimento neurológico.

Segundo Dr. Fay (in Doman, 1989, p.79), “existem funções que só o homem possui, e todas elas residem no seu córtice”:

A capacidade de andar ereto; A capacidade de opor o polegar ao indicador; A capacidade de falar e escrever; A capacidade de entender a fala; A capacidade de ler. Todas são funções do córtice lesado, e a lesão subentende a perda de uma ou de todas estas funções. Eis um importante instrumento de diagnóstico, que nunca deve ser esquecido”. Em Doman (1989, pp 97-98), encontramos que:...

"O cérebro humano, de acordo com os sistemas auto-reguladores do Dr. Wiender, opera evidentemente como um circuito cibernético. O funcionamento cibernético normal do cérebro depende inteiramente da integridade de todas essas vias. A destruição ‘completa’ de todas as vias motrizes, ‘ou’ de todas as vias sensoriais resultará na ausência ‘completa’ do desempenho funcional do ser humano. A destruição ‘parcial’ de umas ou de outras, resultará na ausência ‘parcial’ do desempenho funcional. É também meridianamente claro que esta ausência de função subsistirá até serem reparadas as antigas vias específicas, ou até serem estabelecidas novas vias, capazes de completar o circuito. Todas as tentativas de tratamento da criança com lesão cerebral deveriam, portanto, nortear-se no sentido de localizar a brecha e fechar o circuito”.

De 1960 a 1970 foi fechada a brecha do circuito com Perfil do Desenvolvimento Humano, sendo através dele possível ver onde está aberta a brecha em cada criança.

Antes disto, em 22 de julho de 1955, numa época de muito trabalho, pesquisas e estudos nasce o The Institute the Achievement of Human Potential. No Brasil, em 1959, surge o Centro de Reabilitação Nossa Senhora da Glória, Instituto para o Desenvolvimento do Potencial Humano, no Rio de Janeiro.

A partir do Perfil do Desenvolvimento Humano, muitas técnicas foram acrescentadas ao trabalho e muitas outras foram criadas.

"Reconhecendo qual a função afetada numa criança com lesão cerebral, devemos facilitar a transmissão de mensagens ao cérebro pelo aumento dos estímulos, então tudo quanto fazemos nos Institutos para o Desenvolvimento do Potencial Humano é proporcionar a criança estimulação visual, auditiva, e táctil, com mais freqüência, maior intensidade e maior duração, assim como lhe oferecer oportunidade ilimitada de exercitar suas funções em perfeita consonância com o modo ordenado como cresce o cérebro”.(Doman, 1989, p.232).

Todas as técnicas e os programas desenvolvidos têm por base fazer com que as crianças passem pelas etapas do desenvolvimento descritas no Perfil e que percorram o mesmo caminho trilhado por todas as crianças. Para que isto ocorra, os Institutos têm uma filosofia própria e a crença nas crianças e em seu potencial, não importando o quão grave seja sua lesão. Este potencial não nasce pronto, mas pode ser desenvolvido.

Com relação aos pais, são eles é que passam a maior parte do dia, da semana, do ano, e de suas vidas com seus filhos, são eles que amam seus filhos acima de qualquer coisa, independente de suas dificuldades e são capazes ver até onde vão as limitações de seus filhos e quais são suas reais dificuldades. Os pais ao ouvirem um diagnóstico feito por um profissional dizem: "tá, isso eu já sei, e agora o que posso fazer por ele”?

Somente esses pais são capazes de reabilitar seu filho, de dedicar horas e horas, sem nenhuma cobrança, para vê-lo bem. Nosso papel, enquanto profissional, é fornecer respostas ao: "e agora o que posso fazer”?

"Diariamente, vejo desfilar ante meus olhos a luta e o sacrifício de pais de crianças de cérebro lesado, com a perseverança e a determinação que só um pai ou uma mãe conseguem ter, quando desejam tirar seu filho de uma situação difícil como a causada por uma lesão cerebral”.(J. C. Veras, p.28).

"Os pais não constituem problema para as crianças com lesão cerebral, os pais representam a solução" (ibidem, p.246).

Obs: O livro do Dr. José Carlos Lôbo Véras intitulado, "Você é o Melhor Doutor do Seu Filho", ainda está em processo de publicação. Trecho retirado do original.





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Proposta:

Que cada criança, jovem ou adulta, portadora de lesão cerebral ou com problemas de ordem neurológica, ao procurar a Instituição receba uma programação de acordo com suas necessidades motrizes, sensoriais e fisiológicas.