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Instituto
Véras

Esq-dir, M.Lourdes,
Raymundo, Lourdinha e abaixo Zé Carlos
Véras. |
Num
Domingo de verão, em 1956, nossa família estava
reunida em Paquetá, numa das inúmeras praias da
Ilha. De repente, a vida parou: o Dr. Raymundo
Véras, meu pai, notou que eu estava demorando
demais a voltar de um mergulho. Por mais
incrível que pareça, ali começava a história
da Organização Neurológica no Brasil.
O Dr. Véras tinha uma casa de veraneio em
Paquetá, onde costumava passar os finais de
semana, quando ainda havia tempo para o lazer e
descanso. Há muitos anos, lá estávamos nós,
na praia, em mais um de nossos fins de semana.
Nessa época, eu tinha 15 anos, era um garotão
forte e nadava muito bem, mas a praia de era
muito rasa e ao saltar de um pequeno cais,
próprio para canoas atracarem, errei no cálculo
e bati violentamente com a cabeça no fundo
arenoso, e quando meu pai me retirou da água, eu
já aparentava sinais de gravíssima lesão
medular, inclusive com paralisia aparentemente
total.
O Dr. Véras atravessou a baía imediatamente, me
trazendo para o Rio, a procura de um dos mais
conceituados neurocirurgiões da cidade, seu
amigo. A resposta do colega foi a mais
desanimadora possível:
Infelizmente, Véras, não há nada a
fazer. É duro dizer, mas o remédio, no caso do
seu menino, é esperar a morte, que virá em dez
ou quinze dias, não sei exatamente, mas virá em
breve. Há não ser que ocorra um milagre.
Agradecendo às pressas, meu pai me colocou na
mesma ambulância em que lá chegáramos e nos
dirigimos ao Hospital Miguel Couto, na Gávea, do
qual ele era chefe dos serviços de
otorrinolaringologia e oftalmologia. Passei por
todos os tipos de exames, realizados
minuciosamente, fui atendido por todos os chefes
dos serviços do hospital. Ao final de tudo
na noite mais longa de toda sua vida
segundo meu pai a resposta foi idêntica
à anterior: Não há nada a fazer.
Meu pai, embora profundamente abatido, não
desanimou. Achava impossível que todos os
recursos da ciência já estivessem esgotados. E
continuou a buscá-los, estivessem onde
estivessem. Mesmo porque, sempre fez questão de
afirmar que nessa busca louca por todos os
recursos da ciência, existia uma fé a
impulsiona-lo, uma fé inabalável em Nossa
Senhora. Na semana seguinte partimos para os
Estados Unidos, lá percorrendo por vários dias
instituições especializadas. Tudo foi inútil.
As respostas eram sempre as mesmas. E o caso
parecia mesmo sem solução. Foi quando,
preparando-se para voltar, minha mãe que rezava
chorando na Catedral de Saint Patrick, encontrou
uma pessoa que lhe disse:
Porque não leva seu filho ao Instituto
Doman, na Filadélfia? Lá estão sendo
realizadas experiências inteiramente novas com
pessoas que sofreram lesão cerebral.
Era exatamente uma indicação dessas que meu pai
esperava. Assim, quando já ia reservar as
passagens de volta, os fatos mudaram inteiramente
seu rumo, e fomos para Filadélfia, uma viagem
por sinal muito mais curta. De Filadélfia em
diante, a história passou a ser a da Fundação
do Centro de Reabilitação Nossa Senhora da
Glória, com adesão total dos métodos de Glenn
Doman, que se tornaram nossa especialidade.
Na verdade, meu pai não só me internou na
clínica de Filadélfia, como também lá ficou,
para poder se dedicar melhor ao aprendizado de
tudo o que se fazia na clínica.
Retornamos ao Brasil em 1958, eu andando em uma
cadeira de rodas, mas com os movimentos acima da
cintura recuperados, e meu pai, Dr. Raymundo
Véras, com uma decisão tomada: criar em seu
país aquelas condições que conheceu em
Filadélfia, até então inexistentes no Brasil.
Isso o obrigou a se deslocar várias vezes, com
muito sacrifício aos Estados Unidos. Ele dedicou
três anos de sua vida a tarefa de me salvar, e
prometeu a si mesmo que outros pais não
sofreriam o mesmo processo a qual ele havia siso
submetido.
Em 23 de abril de 1959, o Dr. Raymundo Véras
fundou oficialmente o Centro de Reabilitação
Nossa Senhora da Glória, que nos primeiros meses
de existência funcionou em nossa própria casa,
na rua Paissandu em Laranjeiras, no Rio de
Janeiro. Era então uma pequena clínica. No
mesmo mês, devido a grande demanda de pacientes
em busca de tratamento, o Dr. Véras alugou uma
casa à Rua 19 de Fevereiro em Botafogo, no Rio
de Janeiro, de onde teve que se mudar logo em
seguida, devido a desapropriação do imóvel,
para que o bairro ganhasse mais uma via de
escoamento de trânsito. Saiu sem reclamar e até
mesmo feliz em servir a comunidade e alugou,
ainda em Botafogo, mais duas casas, até ver
finalmente realizado o seu sonho: a sede
própria. O dia da realização deste sonho foi
longamente esperado. Logo vamos ver como tudo
aconteceu.
De início, o Centro de Reabilitação só
tratava das seqüelas de problemas neurológicos,
como acidentes vasculares cerebrais (comumente
conhecidos por "derrame"), traumatismos
raquimedulares e traumatismos cranioencefálicos,
geralmente produzidos por acidentes de trânsito.
Nosso grupo de pacientes era constituído, quase
que em sua totalidade, por adultos,
encontrando-se entre eles marechais, generais,
brigadeiros, embaixadores e comerciantes, que
recebiam diariamente tratamentos específicos.
Em 1963, o Centro começou a receber também
crianças com lesão cerebral. Certo dia o Dr.
Véras foi procurado por um amigo que pediu,
insistentemente que seu filho mongolóide fosse
aceito entre os portadores de lesão cerebral. A
partir desse momento, ele começou a tratar de
mongolismo. Ao contrário dos portadores de
lesão cerebral, o mongolóide não tem uma parte
do seu cérebro morta, e sim uma desorganização
neurológica, que pode ser mais ou menos intensa.
São células nervosas mal ou pauperrimamente
mielinizadas no bulbo, na medula, na ponte de
Varólio ou na Córtex, determinando a gravidade
do caso. O tratamento deu certo, e o Dr. Véras
se dedicou de tal forma ao estudo do mongolismo,
que se transformou numa das maiores autoridades
mundiais no assunto, campo em que foi um pioneiro
no tratamento.
Por volta de 1966, o Centro de Reabilitação
Nossa Senhora da Glória passou a se dedicar
exclusivamente a crianças de cérebro lesado, o
que faz até hoje, com bastante sucesso.
Em 1969, o então governador do Estado da
Guanabara (hoje Estado do Rio de Janeiro),
embaixador Negrão de Lima, doou um terreno, à
rua Humaitá número 45, para que fosse erguida a
nossa sede. Teve um papel relevante nessa
conquista o Dr. Hugo Ramos Filho, na época
bacharel em Direito, pessoa altamente interessada
na causa da criança de cérebro lesado.
Colaboraram também o professor José Chediack,
então chefe do Gabinete Civil do Governador do
estado e o Dr. Fernando Abelheira, presidente da
Fundação Estadual do Bem Estar do Menor. Em
meados de 1975 ficou pronta a sede da
Instituição. De 58 a 68, fui paciente e
trabalhei nessa clínica.
Quando voltei do trabalho em Filadélfia, ainda
não havia terminado o ginásio (hoje primeiro
grau), e até 1956, ano em que sofri o acidente,
freqüentava a escola pelos meus próprios meios,
durante o dia. A partir 1958 passei a faze-lo à
noite, carregado pelo meu pai, que havia comprado
um velho Chevrollet especialmente para me
transportar. Na escola, durante o período de
aulas, Dr. Raymundo Véras lá me deixava,
entregue aos meus próprios cuidados. Nessa
ocasião, recebi e aprendi o que é
SOLIDARIEDADE, nunca tendo sofrido por parte dos
meus colegas e professores qualquer tipo de
discriminação.
Desde o começo, meu pai me orientou no sentido
de não aceitar qualquer concessão ou
discriminação. A única concessão aceitável
era conseguir da direção da escola que minha
sala fosse no andar térreo. O Raymundo sempre me
disse: "se alguém nos facilitar,
conseguiremos nosso objetivo com menos
dificuldade, porém, se não houver facilidade,
nós vamos atingi-lo da mesma forma, apenas
demorará um pouco mais". Graças a essa
filosofia, viajei várias vezes por dois
continentes e estive em todos os lugares que
quis, inclusive onde pessoas em boa forma física
não gostam de se aventurar. Muitas vezes, me vi
no quarto ou quinto andar de edifícios sem
elevador. Andei pelos caminhos que levam ao
espetáculo da Foz do Iguaçu. Passeei em lanchas
velozes, sendo acompanhado apenas por um amigo
que havia tido um problema neurológico
semelhante ao meu, encontrando-se em condições
pouco melhores que as minhas. Desci de trenó
numa encosta de neve. Fui a bailes de carnaval e
brinquei os quatro dias, me divertindo tanto
quanto meus amigos. Olhando para trás, hoje, aos
50 anos, acho que fiz muita loucura, porém,
tenho certeza de que as repetiria se tivesse que
recomeçar.
Em 1962, fiz pela primeira vez o exame vestibular
para as quatro faculdades de medicina existentes
no Rio de Janeiro naquela época: três na cidade
do Rio e uma em Niterói. Houve dias em que a
coincidência de provas obrigou-me a ir pela
manhã a Vila Isabel e de lá me deslocar para
Niterói, às pressas, para fazer mais uma prova.
Apesar de todo meu esforço, fui reprovado
naquele ano. Mas eu estava decidido a ser
médico, e disse para mim mesmo: "nem que
leve o resto da vida tentando, eu vou
conseguir". No ano seguinte, ingressei na
faculdade de ciências médicas da Universidade
do Estado da Guanabara, atual UERJ.
Os 6 anos de curso médico representaram um
período muito difícil para mim. A faculdade era
em horário integral. Tínhamos aula das 7 ao
meio dia e das 13 às 17 horas, inclusive aos
sábados. Eu precisava acordar às 5 horas da
manhã, para sair às 6 da minha casa no Flamengo
e chegar às 7 em Vila Isabel. No intervalo para
o almoço, era obrigado a realizar o percurso de
volta para casa e de retorno à faculdade num
curto espaço de tempo. Muitas vezes, as aulas da
tarde eram no Bairro do Cajú ou no Instituto
Médico Legal (centro da cidade). Outras se
prolongavam até à noite. Quantas vezes eu
permanecia no Anatômico até por volta das 19
horas, na companhia do Jovino (ou seria o Joval),
estudando para a prova com um sanduíche do lado?
Muitos incentivaram minha luta, como o professor
Motta Maia. É claro que havia também
professores que me criavam obstáculos como
Profº Bruno Lobo, a quem hoje agradeço por ter
me obrigado a reunir todas as minhas forças para
superar as barreiras que me impunha, me fazendo
verificar o quanto possuía em termos de reservas
de energia.
Superada a fase acadêmica, recebi meu diploma em
1969. Nesta ocasião, já atendia pacientes no
Centro de Reabilitação Nossa Senhora da
Glória.
(...) O trabalho que temos desenvolvido, seguindo
os preceitos do Dr. Glenn Doman, é o de explicar
a todos que lesão cerebral é no cérebro, e é
aí que deve ser tratada. Até hoje, a primeira
parte deste enunciado é dita como óbvia,
enquanto a segunda não é entendida, não se
admitindo como possa ser feita. A maioria dos
profissionais de saúde persiste em tratar os
sintomas como se fossem causas.
Nosso grupo, no mundo inteiro (inclusive no
Brasil) sofreu agressões de sociedades médicas
e de grupos médicos que se julgavam donos da
área da lesão cerebral, e, muitos dos quais,
graças a Deus, estão hoje dando trabalho a
Lúcifer e seus associados. Infelizmente estes
ataques custaram a vida de meu pai, que com toda
sua força e determinação, se lançou de corpo
e alma a árdua tarefa de pioneiro na vida da
criança de cérebro lesado.
Como todo pioneiro que se preza, o Dr. Raymundo
Véras abriu caminho com as próprias mãos,
sofreu humilhações e se sentiu sozinho e
incompreendido. Ele plantou a semente do nosso
trabalho, tendo que regá-la com suor e
lágrimas, no entanto, deixou um caminho largo e
aplainado. Em mim, deixou o seu exemplo, pelo
qual tenho procurado me guiar.

José Carlos e
Conceição Véras. |
(...)
Na década de 60, tive um inconseqüente e
rápido noivado, mas, por volta de 1970, uma
pessoa que mudaria o rumo de minha vida chegou a
esta clínica, em busca de tratamento para sua
irmã, portadora de lesão cerebral. Ela tinha 15
anos, era uma criança meiga, que demonstrava um
amor e uma responsabilidade muito grandes para
com a irmã. Seu pai falecera há pouco tempo,
deixando a família em situação difícil. Todos
queriam ajudá-la, e algumas pessoas me
procuraram para expor o problema. Eu me lembro
claramente que conversei com meu pai na mesma
noite e ele decidiu: "vamos colocá-la para
trabalhar conosco". Durante muitos anos ela
foi secretária do Dr. Raymundo Véras, dele
assimilando o espírito lutador e a nobreza de
coração, aprendendo a ser fiel a causa da
criança de cérebro lesado. Em 26 de agosto de
1972 começamos a namorar. Um ano depois ficamos
noivos e, após um ano de noivado, casamos.
Sempre em 26 de agosto.
(...) Em 1958, quando o Centro de Reabilitação
Nossa Senhora da Glória foi criado era
constituído por uma equipe de sete pessoas.
Além do Dr. Raymundo Véras, havia o Dr. Levy,
psicólogo, Maurício, professor de Educação
Física que veio de Israel, Willian, também
professor de Educação Física, Tia Patrícia,
secretária e tesoureira, e o Enio, motorista,
que também atuava como auxiliar de
reabilitação, quando não estava transportando
pacientes. Esta foi nossa primeira equipe. Sem
contar o apoio que eu minha mãe e minha irmã
dávamos, onde se fizesse necessário.
Hoje, o Centro de Reabilitação Nossa Senhora da
Glória é constituído por uma equipe de mais de
60 pessoas. Nos primeiros tempos, muitas vezes, o
Dr. Raymundo precisou vender o carro e outros
objetos de valor para poder manter a folha de
pagamento em dia. A vida de uma instituição
filantrópica no Brasil não é lá muito fácil
e hoje, graças ao esforço dele, nosso Centro
reúne condições que permitem manter uma equipe
e uma sede, à altura dos sonhos e sacrifícios
de meu pai e de toda nossa família. É
importante ressaltar sempre que nossa
instituição nasceu dentro de casa com nosso
capital e esforço, porém, com uma visão de
futuro e desprendimento pelas coisas materiais, o
Dr. Raymundo Véras transformou o Centro de
Reabilitação Nossa Senhora da Glória desde seu
primeiro Estatuto numa Entidade Civil
Filantrópica sem fins lucrativos, nos mesmos
moldes em que funcionam todas as outras
instituições a nós ligadas, especialmente os
Institutos de Filadélfia.
Nosso ideal é conseguir que as instituições
sobrevivam a nós, pois sabemos que a vida é
curta, e devemos lutar para torná-la útil,
prosseguindo com a mesma filosofia, mesmo quando
não estivermos mais aqui. Meu pai fez de mim um
seu seguidor, e tenho procurado incentivar
várias outras pessoas para que continuem o
trabalho depois de mim. Tenho certeza de que,
dentre as pessoas que formam minhas chefias,
existem muitas com gabarito para continuar a
nossa obra e mantê-la dentro da mesma filosofia.
Maria da Conceição Massa Véras, minha esposa,
responsável, no Brasil, pelo Programa de
Inteligência, tem todas as condições para
isto.
(...) A maioria das pessoas não tem porque
acordar a cada dia, ou melhor: desconhece a sua
verdadeira missão. Nós não nascemos para
acordar, comer, trabalhar, passear, dormir e etc.
Cada um de nós tem sua missão, desde o ser
formado por uma única célula até àqueles mais
desenvolvidos física e intelectualmente. Sentir
que somos responsáveis, juntamente com a equipe
e os pais, por fazer enxergar uma criança que
não enxerga, fazer ouvir aquela que não ouve,
fazer andar a que não andava, faz com que todo
nosso Eu se regozije. Este é o nosso maior
pagamento pelas jornadas de trabalho que às
vezes atinge 16 horas.
(...) Após a morte de meu pai em 1975, minha
mãe assumiu a direção do Centro. Em 1986 eu
assumi a direção geral, tendo como
vice-diretora minha irmã, Lourdinha Véras.
Espero também que, nessa época, nosso programa
de baseie muito mais na prevenção dos problemas
que no tratamento das seqüelas neurológicas.
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